quinta-feira, 19 de janeiro de 2012


Mar portugês
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Fernando Pessoa

sábado, 7 de janeiro de 2012

Pai, eu te amo.


Pai,
Hoje 'tive vontade de te escrever. Sabe, andei lendo tópicos relacionados com meus problemas emocionais (aqueles que só o Senhor sabe) e percebi que sem Ti, nada, nada tem sentido. É em vão viver longe de Ti. Sabe, Papai, aquele garoto realmente meche comigo, aquele problema, meu Senhor, realmente me faz chorar vez ou outra e minha carne é podre. Mas Pai, eu me espanto ao ver que nada tem sentido ao passo que vivo longe do Teu amor. O verdadeiro amor. Eu sei que ás vezes, Paizinho, me comporto como filha rebelde. As vezes te magoou demais, né Papai? E por isso eu choro. Eu me culpo. Eu me odeio. Mas Pai, logo me lembro que o Senhor tem o amor mais lindo que já existiu, existe e existirá nesse mundo e o Senhor me criou. O inimigo tenta me derrubar, mas em Ti, sou mais que vencedora. Hoje, te faço um pedido, Papai, ignore minha bobagem de estar te escrevendo como se o Senhor estivesse longe demais, sendo que habita em meu coração, mas o Senhor bem sabe que escrever me faz bem! Pai, me perdoa? O Senhor sabe pelo quê. Não convém falar em cartas que alguns lerão.  Papai, tem meninas e meninos, princesas e príncipes lendo  esta carta agora (assim que eu terminar de escreve-la é claro) abençoa-os, tende misericórdia. Mais do que o Senhor já têm. Tua graça nos basta, mas merece-la é ainda melhor! Nos ajuda Paizinho, a vencer! Nos ajuda a termos uma fé genuína, sem pensar em Ti como um ser normal no universo, ou apenas como o Criador, ajude-nos a amar-te Pai, de verdade, de coração. A respeitar-te. A adorar-te. O Senhor não é apenas "um ser normal no universo" nem alguém que apenas nos ama. O Senhor é nosso Pai. Queremos o Teu colo. Te peço Senhor: me ajude agradecer mais. Perdoe minhas falhas.
Eu te amo,
Pai.
                                                                                      De Tua filha. E de teus outros filhinhos por aí.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Enquanto a sociedade feliz não chega, que haja pelo menos 
fragmentos de futuro em que a alegria é servida como 
sacramento, para que as crianças aprendam que o 
mundo pode ser diferente. Que a escola, 
ela mesma, seja um fragmento do 
futuro…

Rubem Alves
Quando vamos viver a vontade do Deus Pai
De viver seu amor de vivermos em paz?

Humanos - Oficina G3

domingo, 1 de janeiro de 2012


Navio Negreiro
Castro Alves
  I
‘Stamos em pleno mar… Doudo no espaço 
Brinca o luar — dourada borboleta; 
E as vagas após ele correm… cansam 
Como turba de infantes inquieta. 
‘Stamos em pleno mar… Do firmamento 
Os astros saltam como espumas de ouro… 
O mar em troca acende as ardentias, 
— Constelações do líquido tesouro… 
‘Stamos em pleno mar… Dois infinitos 
Ali se estreitam num abraço insano, 
Azuis, dourados, plácidos, sublimes… 
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?… 
‘Stamos em pleno mar… Abrindo as velas 
Ao quente arfar das virações marinhas, 
Veleiro brigue corre à flor dos mares, 
Como roçam na vaga as andorinhas… 
Donde vem? onde vai?  Das naus errantes 
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço? 
Neste saara os corcéis o pó levantam,  
Galopam, voam, mas não deixam traço. 
Bem feliz quem ali pode nest’hora 
Sentir deste painel a majestade! 
Embaixo — o mar em cima — o firmamento… 
E no mar e no céu — a imensidade! 
Oh! que doce harmonia traz-me a brisa! 
Que música suave ao longe soa! 
Meu Deus! como é sublime um canto ardente 
Pelas vagas sem fim boiando à toa! 
Homens do mar! ó rudes marinheiros, 
Tostados pelo sol dos quatro mundos! 
Crianças que a procela acalentara 
No berço destes pélagos profundos! 
Esperai! esperai! deixai que eu beba 
Esta selvagem, livre poesia 
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa, 
E o vento, que nas cordas assobia… 
…………………………………………………. 
Por que foges assim, barco ligeiro? 
Por que foges do pávido poeta? 
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira 
Que semelha no mar — doudo cometa! 
Albatroz!  Albatroz! águia do oceano, 
Tu que dormes das nuvens entre as gazas, 
Sacode as penas, Leviathan do espaço, 
Albatroz!  Albatroz! dá-me estas asas. 
II
     
Que importa do nauta o berço, 
Donde é filho, qual seu lar? 
Ama a cadência do verso 
Que lhe ensina o velho mar! 
Cantai! que a morte é divina! 
Resvala o brigue à bolina 
Como golfinho veloz. 
Presa ao mastro da mezena 
Saudosa bandeira acena 
As vagas que deixa após. 
Do Espanhol as cantilenas 
Requebradas de langor, 
Lembram as moças morenas, 
As andaluzas em flor! 
Da Itália o filho indolente 
Canta Veneza dormente, 
— Terra de amor e traição, 
Ou do golfo no regaço 
Relembra os versos de Tasso, 
Junto às lavas do vulcão! 
O Inglês — marinheiro frio, 
Que ao nascer no mar se achou, 
(Porque a Inglaterra é um navio, 
Que Deus na Mancha ancorou), 
Rijo entoa pátrias glórias, 
Lembrando, orgulhoso, histórias 
De Nelson e de Aboukir.. . 
O Francês — predestinado — 
Canta os louros do passado 
E os loureiros do porvir! 
Os marinheiros Helenos, 
Que a vaga jônia criou, 
Belos piratas morenos 
Do mar que Ulisses cortou, 
Homens que Fídias talhara, 
Vão cantando em noite clara 
Versos que Homero gemeu … 
Nautas de todas as plagas, 
Vós sabeis achar nas vagas 
As melodias do céu! … 
III
     
Desce do espaço imenso, ó águia do oceano! 
Desce mais … inda mais… não pode olhar humano 
Como o teu mergulhar no brigue voador! 
Mas que vejo eu aí… Que quadro d’amarguras! 
É canto funeral! … Que tétricas figuras! … 
Que cena infame e vil… Meu Deus! Meu Deus! Que horror! 
IV
      
Era um sonho dantesco… o tombadilho  
Que das luzernas avermelha o brilho. 
Em sangue a se banhar. 
Tinir de ferros… estalar de açoite…  
Legiões de homens negros como a noite, 
Horrendos a dançar… 
Negras mulheres, suspendendo às tetas  
Magras crianças, cujas bocas pretas  
Rega o sangue das mães:  
Outras moças, mas nuas e espantadas,  
No turbilhão de espectros arrastadas, 
Em ânsia e mágoa vãs! 
E ri-se a orquestra irônica, estridente… 
E da ronda fantástica a serpente  
Faz doudas espirais … 
Se o velho arqueja, se no chão resvala,  
Ouvem-se gritos… o chicote estala. 
E voam mais e mais… 
Presa nos elos de uma só cadeia,  
A multidão faminta cambaleia, 
E chora e dança ali! 
Um de raiva delira, outro enlouquece,  
Outro, que martírios embrutece, 
Cantando, geme e ri! 
No entanto o capitão manda a manobra, 
E após fitando o céu que se desdobra, 
Tão puro sobre o mar, 
Diz do fumo entre os densos nevoeiros: 
“Vibrai rijo o chicote, marinheiros! 
Fazei-os mais dançar!…” 
E ri-se a orquestra irônica, estridente… 
E da ronda fantástica a serpente 
          Faz doudas espirais… 
Qual um sonho dantesco as sombras voam!… 
Gritos, ais, maldições, preces ressoam! 
          E ri-se Satanás!…  
V
     
Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus! 
Se é loucura… se é verdade 
Tanto horror perante os céus?! 
Ó mar, por que não apagas 
Co’a esponja de tuas vagas 
De teu manto este borrão?… 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão! 
Quem são estes desgraçados 
Que não encontram em vós 
Mais que o rir calmo da turba 
Que excita a fúria do algoz? 
Quem são?   Se a estrela se cala, 
Se a vaga à pressa resvala 
Como um cúmplice fugaz, 
Perante a noite confusa… 
Dize-o tu, severa Musa, 
Musa libérrima, audaz!… 
São os filhos do deserto, 
Onde a terra esposa a luz. 
Onde vive em campo aberto 
A tribo dos homens nus… 
São os guerreiros ousados 
Que com os tigres mosqueados 
Combatem na solidão. 
Ontem simples, fortes, bravos. 
Hoje míseros escravos, 
Sem luz, sem ar, sem razão… 
São mulheres desgraçadas, 
Como Agar o foi também. 
Que sedentas, alquebradas, 
De longe… bem longe vêm… 
Trazendo com tíbios passos, 
Filhos e algemas nos braços, 
N’alma — lágrimas e fel… 
Como Agar sofrendo tanto, 
Que nem o leite de pranto 
Têm que dar para Ismael. 
Lá nas areias infindas, 
Das palmeiras no país, 
Nasceram crianças lindas, 
Viveram moças gentis… 
Passa um dia a caravana, 
Quando a virgem na cabana 
Cisma da noite nos véus … 
… Adeus, ó choça do monte, 
… Adeus, palmeiras da fonte!… 
… Adeus, amores… adeus!… 
Depois, o areal extenso… 
Depois, o oceano de pó. 
Depois no horizonte imenso 
Desertos… desertos só… 
E a fome, o cansaço, a sede… 
Ai! quanto infeliz que cede, 
E cai p’ra não mais s’erguer!… 
Vaga um lugar na cadeia, 
Mas o chacal sobre a areia 
Acha um corpo que roer. 
Ontem a Serra Leoa, 
A guerra, a caça ao leão, 
O sono dormido à toa 
Sob as tendas d’amplidão! 
Hoje… o porão negro, fundo, 
Infecto, apertado, imundo, 
Tendo a peste por jaguar… 
E o sono sempre cortado 
Pelo arranco de um finado, 
E o baque de um corpo ao mar… 
Ontem plena liberdade, 
A vontade por poder… 
Hoje… cúm’lo de maldade, 
Nem são livres p’ra morrer. . 
Prende-os a mesma corrente 
— Férrea, lúgubre serpente — 
Nas roscas da escravidão. 
E assim zombando da morte, 
Dança a lúgubre coorte 
Ao som do açoute… Irrisão!… 
Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus, 
Se eu deliro… ou se é verdade 
Tanto horror perante os céus?!… 
Ó mar, por que não apagas 
Co’a esponja de tuas vagas 
Do teu manto este borrão? 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão! … 
VI
        
Existe um povo que a bandeira empresta 
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!… 
E deixa-a transformar-se nessa festa 
Em manto impuro de bacante fria!… 
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, 
Que impudente na gávea tripudia? 
Silêncio.  Musa… chora, e chora tanto 
Que o pavilhão se lave no teu pranto! … 
Auriverde pendão de minha terra, 
Que a brisa do Brasil beija e balança, 
Estandarte que a luz do sol encerra 
E as promessas divinas da esperança… 
Tu que, da liberdade após a guerra, 
Foste hasteado dos heróis na lança 
Antes te houvessem roto na batalha, 
Que servires a um povo de mortalha!… 
Fatalidade atroz que a mente esmaga! 
Extingue nesta hora o brigue imundo 
O trilho que Colombo abriu nas vagas, 
Como um íris no pélago profundo! 
Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga 
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! 
Andrada! arranca esse pendão dos ares! 
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

Quais são seus motivos para não acreditar no que há de bom? As dores desse mundo sufocam, apertam… E por que então, não podemos ver a cura?
Um dos motivos que me convenci, foi a tal preocupação. Aquela que nos amarra, nos deixa sem saída, sem esperança. Quando nos encontramos preocupados, somos sempre levados a deixar de lado os sonhos e projetos, esquecer de fontes de alegria e pensarmos apenas em frases parecidas com: “O que vou fazer se não pagar a conta de luz esse mês?”
Mas se descansarmos e tivermos a certeza de que somos capazes poderíamos transformar esses pensamentos, em: “O que eu posso fazer para pagar a conta de luz esse mês?”
Focalizando assim a solução e não o problema… Muitas pessoas estão focalizando os problemas e quase nunca podem ver a solução que se esconde atrás de várias bobagens que colocamos em nosso consciente. Se tirarmos as diversas emoções negativas, poderíamos ver claramente as capacidades que temos para vencer determinado problema e outras dificuldades. Mas não é tão fácil limpar nosso interior desses pensamentos obscuros de desesperança. Mas, também, não é tão difícil. Depende do querer. Do querer e do agir, obviamente. Basta à força de vontade. A certeza de que mesmo que não as veja agora, você tem capacidades dentro de si para solucionar o que tem que de ser solucionado. E então, desejas acreditar em você mesmo?
Hávila Carvalho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
No meio do caminho - Carlos Drummond de Andrade